Se você está em perigo agora: ligue 190 (Polícia Militar). Em risco imediato de
ferimentos, ligue 192 (SAMU). Para orientação e encaminhamento, ligue 180
(Central de Atendimento à Mulher). Se houver crianças/adolescentes em risco,
disque 100 (Direitos Humanos) e procure também o Conselho Tutelar da sua
cidade.
A violência dentro de casa (física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral) não é
“briga de casal” e não se resolve com paciência, fé ou silêncio. A ciência mostra que
a violência tende a se repetir e escalar quando não há intervenção (OMS/WHO). E
quando há crianças, os impactos emocionais e comportamentais podem ser
profundos — mesmo que elas “não vejam”, elas percebem o clima e o medo.
Este guia é para ajudar você a reconhecer sinais, agir com segurança, proteger
filhos e buscar apoio efetivo, sem romantizar reconciliação e sem colocar a vítima
em mais risco.
Entenda o que é violência familiar (e por que ela piora com o tempo)
Violência familiar não é só agressão física. Especialistas descrevem um padrão
chamado “controle coercitivo”: a pessoa agressora controla a outra por medo,
ameaças, humilhação, vigilância, isolamento, dinheiro, redes sociais, e “punições”
emocionais. Isso pode aparecer como:
● Violência psicológica: xingamentos, humilhação, chantagem, gaslighting
(“você é louca”), ameaças, ciúme controlador.
● Violência física: empurrões, tapas, sufocamento/esganadura (sinal de
altíssimo risco), quebrar objetos, bloquear saída.
● Violência sexual: forçar relações, “insistir até ceder”, filmar sem
consentimento.
● Violência patrimonial: controlar salário, impedir trabalho, destruir celular, reter
documentos.
● Violência moral: difamação, exposição, acusações.
Por que isso importa? Porque o foco não é “quem gritou primeiro”, e sim padrão +
risco. E há sinais que pedem ação rápida: ameaça de morte, arma em casa,
perseguição, esganadura, separação recente, abuso de álcool/drogas junto com
agressividade, e violência na gravidez (OMS/WHO; CDC).
No Brasil, o tema é urgente: relatórios de segurança pública e pesquisas nacionais
apontam níveis elevados de violência contra a mulher e feminicídio, com
subnotificação e aumento do risco dentro do ambiente doméstico (FBSP; IPEA/Atlas
da Violência).
O que fazer (de forma segura) se você é vítima — passos práticos e
realistas
A prioridade é segurança, não “resolver o relacionamento”. Use um plano simples:
1) Avalie o risco com honestidade (sem se culpar)
Perguntas rápidas:
● Houve ameaça de morte, arma, esganadura, ou impedimento de sair?
● Ele/ela controla seu celular, dinheiro, trabalho, amizades?
● Você tem medo de contrariar?
Se “sim”, trate como alto risco: peça ajuda hoje.
2) Procure apoio humano antes de confrontar
Confrontar a pessoa agressora sozinho(a) pode aumentar o perigo. Prefira:
● 1 pessoa de confiança (família/amigo/vizinho)
● 180 (orientação e encaminhamento)
● Delegacia (preferencialmente Delegacia da Mulher) e rede local de
atendimento
3) Monte um “plano de saída” (mesmo que você ainda não vá sair)
Isso é prática recomendada em intervenções de segurança:
● Separe documentos, chaves, algum dinheiro, remédios, e contatos
importantes
● Combine uma palavra-código com alguém (“se eu mandar ‘azul’, chama a
polícia”)
● Defina um local seguro para ir (casa de parente, abrigo, vizinho)
● Se possível, guarde evidências com segurança (mensagens, fotos, laudos)
sem colocar você em risco
4) Registre e busque proteção legal quando possível
No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) prevê medidas protetivas. Para
muitas vítimas, medidas protetivas e rede de apoio reduzem risco — mas o
momento da separação pode ser perigoso, então faça isso com plano e suporte.
5) Terapia ajuda — mas não substitui proteção
Psicoterapia baseada em evidências pode ajudar a reduzir culpa, ansiedade, trauma
e a reorganizar a vida. Porém: terapia não “cura” um agressor sem
responsabilização e intervenção específica. E terapia de casal não é indicada
quando há violência e medo, porque pode aumentar o risco e a manipulação
(orientações clínicas como as da APA e diretrizes internacionais).
Como proteger os filhos (e como falar sobre o assunto)
Quando há violência, as crianças podem apresentar: ansiedade, irritabilidade,
dificuldades na escola, regressões (voltar a fazer xixi na cama), agressividade, ou
“hipermaturidade” (virar “adultinho”). Isso não é “frescura”: é estresse tóxico e
insegurança.
O que fazer com os filhos:
● Garanta previsibilidade: rotina simples, horários, quem busca na escola.
● Diga a verdade com linguagem adequada:
“Aqui em casa ninguém pode machucar ninguém. Isso está errado e eu estou
buscando ajuda para manter você seguro(a).”
● Nunca coloque a criança como mensageira/juiz: evita mais peso emocional.
● Em caso de risco: procure a rede local (Conselho Tutelar, escola,
UBS/CRAS/CREAS conforme sua cidade) e disque 100 quando necessário.
Se a criança viu agressões, vale buscar atendimento psicológico infantil com
abordagem segura (e, se houver trauma, terapias estruturadas podem ajudar —
sempre com profissional habilitado).
E se você é o agressor (ou percebe que pode agredir)?
Se você já empurrou, ameaçou, quebrou coisas para intimidar, controlou
dinheiro/celular, ou “perdeu o controle”, o passo correto não é pedir desculpa e
seguir igual. É interromper o risco e buscar responsabilização:
● Afaste-se quando estiver ativado (saia do ambiente, sem perseguir).
● Corte álcool/drogas se isso está associado a episódios.
● Procure tratamento psicológico focado em violência e controle (não só
“raiva”), e grupos reflexivos para homens quando disponíveis.
● Aceite consequências legais: responsabilização é parte da prevenção.
O objetivo não é “salvar a relação a qualquer custo”. É parar a violência.
Conclusão
Violência familiar não é um problema “privado”: é um risco real de dano físico e
psicológico — e pode culminar em tragédias. A melhor orientação baseada em
ciência e prática clínica é clara: priorize segurança, rede de apoio e intervenção
especializada, especialmente quando há ameaças, controle coercitivo e crianças
envolvidas. Se você está vivendo isso, você não precisa convencer ninguém de que
é grave — o seu medo já é um sinal suficiente para procurar ajuda.
Em caso de perigo imediato: 190.
Orientação e acolhimento: 180.
Direitos Humanos / crianças em risco: 100.
Emergência médica: 192.
Fonte Original:
World Health Organization (WHO) — Violence against women
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/violence-against-women







